_artigo

Amigos inteligentes e alguns aprendizados sobre água e mobilidade urbana

    No final de 2014, refletindo sobre o ano e lidando com minhas expectativas para 2015, decidi perguntar a amigos e pessoas que admiro o seguinte: considerando para 2015 um cenário brasileiro de instabilidade econômica e polarização política, e também o processo de digitalização de tudo e as novas tecnologias, o que seria inteligente fazer agora?

Perguntei para umas 15 ou 20 pessoas, pedindo para fazerem a reflexão quanto ao que acreditavam ser o campo de atuação possível para o nosso grupo comum e que trouxessem ações imediatas.

Resultou que as respostas, sistematizadas por mim, trouxeram pontos que tenho usado como bússola nesse começo de ano.

Antes de dizer quais são elas, quero contar um pouquinho sobre o lugar em que me encontrava nesse momento, a partir de um breve relato sobre 2014.

Tenho dito que 2014 foi talvez o ano mais difícil da minha vida, mas que, por outro lado, foi também um dos melhores anos que já vivi.

Na perspectiva do projeto que escolhi para me dedicar pela vida a fora, o Instituto Cidade Democrática, captamos 60% do que foi nosso orçamento em 2013, tivemos que desligar duas pessoas da equipe que desempenharam papéis importantíssimos em nosso dia a dia. Dos mais de 20 projetos que submetemos, tivemos aprovados apenas dois, e aproveito para agradecer a Inês Lafer e o Maurício Chaves do Inst. Betty e Jacob Lafer e a Mônica de Roure, a Patrícia Lobaccaro e a Leona Forman da BrazilFoundation pelo relacionamento que começamos nesse ano. Também tivemos os recursos do Omidyar Network e IBM, além de uma parte do projeto do Xingu , em parceria com a Secretaria Geral da Presidência para a Norte Energia e o projeto Água@SP, em parceria com Instituto Socioambiental.

Mas também, visitamos quase 10 administrações municipais ou câmaras de vereadores, apresentando nosso trabalho, aprimoramos muito nosso posicionamento, agora como Think and Do Tank de participação social, fizemos três viagens ao exterior, conectando com gente muito bacana, idealizamos novos projetos incríveis, publicamos o relatório do Webcidadania Xingu, mostrando como 1.500 pessoas de 11 cidades no sul do Pará formularam 415 propostas, 48 com grande relevância para a região e suas transformações (Belo Monte) e 17 estão para serem implementadas por um conjunto de atores. Fizemos o primeiro Mapeamento do Ecossistema Brasileiro da Participação Social, identificando mais de 600 iniciativas por todo o país, encontrando importantes conexões de acordo com seus interesses, habilidades e valores culturais.

Por isso digo que o ano foi duka, mas também difícil praka!

Voltando para as respostas dos meus amigos e pessoas próximas, agora que já podem entender como as respostas foram ouvidas por mim, trago minha leitura:

1) Observar muito, perguntar muito.
Em momentos de confusão, ânimos exaltados e perspectiva de falta, as conversas, atitudes e movimentos podem ser bastante erráticos. Antes de tomar partido e assumir posições em relação a qualquer coisa, ouvir muito, perguntar muito, entender bem e observar. Sendo o caso, claro, tomar posição!

2) Ser um esteio, a partir dos meus princípios e valores.
Em momentos assim, é comum que as pessoas esqueçam valores e princípios e saltem logo para soluções definitivas, muitas vezes com um mindset antigo, culpabilização, rupturas etc. Nessas horas, é muito valioso poder contar com alguém que nos traga de volta a razão, ou à boa emoção.

3) Estar atento para as mudanças que certamente virão.
Ao mesmo tempo em que ter clareza sobre como agir nessa ou naquela situação, a diferença entre pegar ou perder o bonde por estar excessivamente apegado a um modelo de sobrevivência pode estar em perceber que o que mudou foi a situação e não o que fazemos com ela. Muita coisa já está mudando e isso deve se intensificar.

4) Cidades médias.
Os grandes centros já são lugares saturados de várias formas. Em momentos mais tensos e intensos, isso tende a se acentuar, com mais gente procurando o mesmo e a um custo mais baixo, mais ruído, mais tensão nas relações no dia a dia. Cidades médias, pelo contrário, serão lugares em que as tensões não estarão tão exacerbadas e sempre haverá um olhar de maior apreciação àquele que chega de fora e propõem-se a trabalhar.

5) Estar próximo de crianças e da natureza.
A natureza sofre na medida do desmatamento e da poluição, o que não deve aumentar em função do cenário que desenhei. As crianças, da mesma forma, serão aquelas para quem sempre podemos olhar e ter a sensação de que está tudo bem.

Com esses elementos, hoje, caminhando por São Paulo, com um calor imenso, tive dois momentos de clareza sobre água e mobilidade urbana, como disse no começo. Pois bem, aí vai.

A falta de água em São Paulo, cada vez mais grave, com as represas que não enchem e as soluções inteligentes que não vêm, nos trouxe uma belíssima oportunidade de aprender e tomar consciência sobre como a água chega até a nossa torneira. O que é necessário para que possamos ter esse bem maravilhoso e fundamental para a vida no planeta, a melhor coisa que você pode ingerir para a saúde?

140927003447_seca_cantareira_represa_jaguari_reuters_624x351_reuters    Aprendemos qual ou quais são as represas que nos fornecem água, a que bacia ou micro bacia hidrográfica pertencem, aprendemos que precisa chover nas cabeceiras para que tenha água, não adianta chover na cidade, existe uma coisa chamada volume morto, importante para manter a vida na represa, que, com baixa pressão os bairros mais altos sofrem mais, que há mais de 400 iniciativas lidando com a questão da água em São Paulo, que não temos uma política pública boa para enfrentar situações como essa, que existem agências de controle para o assunto em nível federal e estadual, aprendemos muitas novas formas de economizar água e de captar água em casa para uso, que esse negócio de mudanças climáticas pode realmente pegar e precisamos nos mexer e muitos outros aprendizados incríveis.

Sobre a mobilidade urbana, aprendemos muito também, como que pode haver tarifa gratuita passe_livre para grupos específicos, e que o governo pode voltar atrás se a gente protestar, que uma parte da passagem é paga pelas prefeituras na forma de subsídio e essa planilha nem sempre é fácil de entender, que a qualidade da viagem pode ser melhorada se a velocidade de deslocamento dos ônibus for maior, que o transporte com bicicleta é uma opção para o dia a dia e também um mercado que emprega pessoas e gera valor, mas também que é perigoso e é necessário proteger os ciclistas, mantendo distância e construindo ciclovias, que um carro com uma pessoa ocupa o espaço que 16 outras ocupam usando ônibus, van, moto ou bicicleta, que dá pra ter trânsito dentro da garagem para sair do escritório, que uma galinha anda mais rápido que um carro na hora do rush, que o negócio é mesmo investir em ônibus e metrô e que essas empresas dão dinheiro para os políticos de formas diversas.

Bom, isso tudo pode ser resumido em ganhar consciência sobre o mundo em que vivemos. E, com a valiosa orientação dos meus amigos, quero daqui em diante entender melhor, observar com cuidado, perguntar o que é realmente importante e conhecer boas práticas no mundo todo. Porque essa coisa de sair quebrando tudo e xingando todo mundo porque a culpa é do Alckmin e o Haddad está acabando com o trânsito de SP já não me serve mais.

Aproveito para sugerir uma leitura recente que tem me ajudado a adotar essa postura: Como chegar ao sim: a negociação de acordos sem concessões. Confira aqui.

Abraços do Rodrigo.

Categories: Artigos

1 comment

  • Rodrigo Bandeira de Luna

    Completo com essa do amigo Beto Veríssimo:

    “Gosto muito do pensamento original de Robert Greenleaf sobre quem está de fato ‘atrasando os avanços para um mundo mais sustentável.’

    ‘Não são as pessoas más. Não são as pessoas ignorantes. Nem as pessoas apáticas. Não é o ‘sistema’. Não são os reacionários. Se uma sociedade melhor está por vir, ela estará cercada de pessoas más, ignorantes, apáticas e terá um ‘sistema’ imperfeito, prejudicial e ineficiente como veículo para mudança. Liquide as pessoas ruins, altere ou destrua radicalmente o sistema predatório e em menos de uma geração eles estarão de volta.

    O real inimigo é o pensamento confuso que atinge as pessoas boas, inteligentes e vitais, bem como a falta de força dessas pessoas para conduzir mudanças na sociedade. Muitos de nós são críticos e conhecedores. De um lado, há muitos teóricos, muitos retrilhando o caminho da pesquisa. De outro, muito pouca preparação e inclinação para arriscar tarefas difíceis, tal como construir instituições melhores e adotar práticas sustentáveis em um mundo imperfeito, além de muito pouca disposição para entender que o problema ocorre ‘dentro de nós’ e não ‘lá fora’. Em suma, o inimigo são as pessoas boas que possuem o potencial para conduzir mudanças mas não o fazem. Eles sofrem e a sociedade sofre’.

    O mundo precisa de agentes de mudança. Estamos repletos de boas ideias, mas pessoas para impulsioná-las ainda são escassas. Se quisermos ser agentes de mudança, precisamos concentrar nossos esforços em soluções ao invés de problemas. Em última análise, as questões essenciais que precisamos encarar: Qual é a nossa finalidade? Qual é a nossa causa? O que iremos fazer? Cada um e todos nós reunidos somos fontes de poder.”

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *