Reclamar o espaço público e a reconquista do protagonismo da sociedade civil

Como praças comunitárias e movimento de luta por moradia se manifestam no East Village, em Manhattan, NYC

    Em viagem recente a Nova York com minha companheira, nos hospedamos no agradável apartamento da Brooke e do Terry, via AirBNB, o que nos possibilitou trocar ideias sobre a Amazônia, África, praças e jardins comunitários e aprender um bocado sobre tecelagem, a profissão e forma de manifestação artística da Brooke. O Terry, biólogo geneticista que estuda pequenos mamíferos em risco de extinção, estava na África e nossa conversa teve que ser virtual.

O quarto em que ficamos, no apartamento de pouco mais de 60 m2, tem duas janelas abrindo para uma praça que foi criada e é mantida pelos moradores do bairro e onde há hortas, um pequeno lago ornamental, um ‘gazebo’ para os namorados e caminhos por entre uma grande variedade de plantas, cercadas por pedras e muretas. Esse ‘community garden’ abre perto da hora do almoço aos sábados e domingos, mas também pode receber estudantes em qualquer momento durante a semana. Não se pode fumar ou beber álcool nesses locais, mas é possível plantar e colher legumes e verduras. Pela estimativa do MoRUS – Museum of Reclaimed Urban Space (Museu do Espaço Público Reconquistado), há pelo menos 34 dessas praças apenas no East Village, na área compreendida entre as ruas 1 e 13 e as avenidas 1 até D, com seus 48 quarteirões.

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Decoração interna do museu

    No dia 5 de novembro fomos visitar o museu à noite e aproveitamos para conversar com Bill DiPaola, diretor executivo da Time’s Up, ONG que administra o museu, enquanto ajudávamos a ilustrar e dobrar a mala direta para a campanha anual de captação de recursos. A conversa foi boa e relato a seguir com minhas impressões ao final.

    Visivelmente empolgado com sua posição e a visibilidade que o museu tem conquistado, Bill, que é descendente de italianos, nos contou que as praças estão hoje espalhadas pela cidade, em seus 5 ‘boroughs’, os grandes bairros de Nova York, mas que o sentimento de pertencimento e de comunidade que existe no East Village é o mais forte em todo o país.

    Bill guarda um tanto da verve anarquista, característica de alguns dos seus conterrâneos, e que foi bastante influente na cena política até cerca de 1950. Na sua fala fica evidente sua identificação com o movimento dos ‘community gardens’ do qual hoje é um expoente e que teve seu início por volta de 1975. Nesta época a cidade estava “quebrada” e havia prédios abandonados por toda a parte. A ordem era para que as pessoas deixassem a área para evitar a desordem e a violência que acompanhou esse processo. Bill conta como, ao voltar para casa, não era possível seguir do mesmo lado da calçada por um quarteirão inteiro pois tinha que atravessar diversas vezes para evitar situações arriscadas.

Mapa dos ‘community gardens’ no East Village, levantamento realizado pelo MoRUS

Mapa dos ‘community gardens’ no East Village, levantamento realizado pelo MoRUS

    No entanto, a partir deste período e por uns 20 anos, algumas pessoas decidiram ficar na região e, como uma alternativa de moradia, morar nos prédios abandonados, cuidando deles como se a elas pertencessem. Da mesma forma, como alternativa de subsistência, outros dedicaram-se a cultivar espaços abertos, que depois vieram a se tornar os tais ‘community gardens’.

    Um ícone deste processo é o trabalho de Adam Purple, ativista falecido em 14 de setembro de 2015, que cultivou um espaço de cerca de 600 m2, em plena Manhattan, em forma de mandala. Ele o chamou de Jardim do Éden, mas a obra acabou sendo destruída por tratores da prefeitura em 8 de janeiro de 1986.

Jardim do Éden, construído por Adam Purple

Jardim do Éden, construído por Adam Purple

    Neste período a comunidade do bairro passava por uma batalha acirrada contra as forças públicas que alegavam que eles haviam invadido o espaço e deveriam sair para que os prédios, muitos já em ruínas, pudessem ser destruídos para que novos fossem construídos para abrigar a classe média. A comunidade contra argumentava dizendo que os prédios haviam sido abandonados e que pertenciam a eles agora. Houve presença de tanques nas ruas, pessoas foram presas e outras morreram nos conflitos.

    Por volta de fins da década de 1990, decidiu-se que esses moradores poderiam comprar os prédios em que moravam por um dólar e lá continuar morando, mas agora como seus proprietários. Além disso, as praças seriam legalizadas. E assim foi. Ainda alguns se recusaram a pagar o valor, entendendo que nesta luta política nenhum passo atrás era possível, e hoje moram no que se chamam de ‘squats’, prédios invadidos.

    Por tudo o que foi, essa me pareceu uma boa história a ser contada sobre como se pode reaver o espaço urbano tendo a sociedade como responsável por sua manutenção e governança. E, considerando o momento por que passamos atualmente, considero que temos uma oportunidade para olhar em volta e ver que espaços da cidade podem ser ocupados e cuidados para que, no futuro, possamos, como sociedade, chamar para nós a responsabilidade pela construção de um espaço público mais humano, inclusivo e pacífico.

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